Descontos no combustível ou nos produtos da marca: os cartões de fidelização das suas marcas preferidas têm muitas vantagens, mas também inspiram alguns cuidados.

Existem dezenas de cartões, em todo o tipo de atividades, dos hipermercados aos pequenos comércios locais, passando pelo setor automóvel e até clubes de futebol. Para comparar este verdadeiro universo de cartões de forma mais eficaz, optámos por deixar de fora aqueles ligados a marcas ou estabelecimentos locais ou de âmbito menos abrangente em termos geográficos. E delimitámos a análise, não às vantagens específicas ligadas ao programa de fidelização da marca em questão – essas serão interessantes essencialmente para quem é cliente –, mas às vantagens associadas a uma utilização mais generalizada como cartão de crédito. Um exemplo desse uso é o que se ganha com os cartões ao nível do cashback, ou seja, a devolução ao consumidor de parte do valor gasto com o cartão.

Vantagens dos cartões de fidelização 

  • Anuidade gratuita, pelo menos, para o primeiro titular. Exceções: companhias aéreas, Benfica e ACP.
  • Convertem o valor gasto com o cartão em descontos na marca, ou pontos que podem ser utilizados para trocar por ofertas de produtos ou serviços.
  • Outros convertem os golos do clube em dinheiro para o portador do cartão.
  • Alguns atribuem descontos mais elevados em compras, promoções exclusivas ou a possibilidade de parcelar os pagamentos em várias mensalidades sem juros.

Desvantagens dos cartões de fidelização

  • A TAEG aplicada é alta, e, se usar componente de crédito, pode ter surpresas. Existem alternativas mais baratas. Seja responsável, use-os com moderação: este slogan, de um anúncio sobre o consumo de determinadas substâncias, também se aplica aqui.
  • Alguns cartões só atribuem descontos ou vantagens a quem não pagar a totalidade do extrato todos os meses. Assim, o consumidor paga para ter descontos, devido à incidência das taxas de juro nas mensalidades. E dificilmente compensa.
  • Muitos consumidores têm mais do que um cartão de fidelização na carteira. Por isso, a tentação de solicitar também um cartão de crédito de cada uma das marcas preferidas é grande. Mas atenção: como se trata de um financiamento, o montante que for disponibilizado em cada cartão irá contar como um risco potencial de crédito e será registado na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal. No limite, pode impedi-lo de solicitar um crédito à habitação, por exemplo.

Cuidados com o uso dos cartões

Se não os usar, perde dinheiro

Se não usar o cartão, algumas marcas vão cobrar por isso. É a chamada comissão de inatividade. A regra, porém, não se aplica a todos. Encontrámos este custo nos produtos comercializados pela Oney: cartões Auchan, Norauto +, Leroy Merlin e Must. O detentor é penalizado com um valor que varia entre 5,20 e 10,40 euros, se não usar o cartão durante o período de um ano.

Estes cartões podem ser subscritos independentemente da entidade que os emite e do banco onde se tenha a conta. Para não limitar os potenciais clientes, os débitos podem ser feitos numa conta qualquer. Não é necessário abrir uma específica, o que facilita a adesão. Todos eles têm uma página de homebanking ou uma aplicação para telemóvel que permite efetuar consulta de movimentos, pagamentos e outras operações. Mas, no acesso a alguns cartões, poderá ser necessário tornar-se cliente ou sócio do clube ou da associação que representam. É o caso dos cartões DECO PROTESTE, ACP, Benfica Member e FC Porto. 

Atenção às taxas de juro

É preciso não esquecer a questão das taxas de juro. Trata-se de siameses dos cartões de crédito tradicionais: a falta de anuidade é compensada com taxas de juro mais altas quando se recorre ao crédito, e os extratos mensais não são pagos na totalidade. Daí que a taxa anual de encargos efetiva global (TAEG) se encontre, quase sempre, colada ao máximo definido pelo Banco de Portugal para este tipo de crédito ao consumo. O valor é de 15,6% para o primeiro trimestre de 2021. As únicas exceções são o DECO PROTESTE Base (10,2%), o ACP Master (12,5%) e o Benfica Member (13,7 por cento). Por isso, em geral, não são boa opção para quem pretenda utilizar o crédito sem fazer pagamentos a 100 por cento. Ou seja, para quem não tem a dívida no cartão a zeros. Uma missão difícil quando há pouco dinheiro para pagar na totalidade, e ainda mais quando as marcas incentivam os pagamentos faseados. Este cenário poderá traduzir-se num encargo significativo para o consumidor.

Mas os cartões são mais conhecidos, evidentemente, pelos descontos e pelo acesso a promoções ou formas de pagamento exclusivas. Nos cartões das marcas, o valor das compras é transformado, no geral, em vales que só podem ser utilizados em compras na marca representada ou em parceiros. A exceção é o nosso cartão DECO PROTESTE. Em alternativa, são disponibilizados no cartão de fidelização da marca, como no caso do cartão Universo, cujos descontos são carregados no cartão Continente, ao qual está associado, e só podem ser gastos nas lojas da marca. Mas identificámos um problema: alguns cartões só atribuem o desconto se o cliente não pagar a totalidade do extrato todos os meses. É o caso dos cartões Mapfre, FC Porto, Media Markt, Decathlon, Jom, RP On e Fnac. Na prática, o consumidor só recebe o desconto anunciado se deixar uma parte das compras por pagar, quando recebe o extrato mensal. E assim, como explicámos, fica sujeito ao pagamento de juros. Ou seja, o desconto acaba por ser pago com os juros a suportar no final do mês, pela utilização do cartão, e dificilmente será compensador. 

Vejamos um exemplo. Num determinado cartão, anuncia-se um desconto de 1% em todas as compras, só disponível a quem não pagar os extratos a 100 por cento. Vamos supor que o utilizador opta pelo pagamento de 10% do extrato mensal, suportando uma taxa de juro anual (TAN) de 14,3%, e que gasta 500 euros em compras todos os meses. No final do ano, obteve um cashback total de 60 euros (resultante dos 6000 euros gastos). Só que, em juros e impostos, no fim do ano, pagou 394,76 euros… Ou seja, gastou quase 335 euros a mais do que se não usufruísse do desconto. Além de acumular uma dívida no cartão de quase 3300 euros. Uma verdadeira armadilha para o consumidor mais distraído. 

Escolha cartões sem anuidade e pague os extratos na íntegra

Por mais tentador que seja – e há vantagens claras, reconheçamos –, não podemos esquecer-nos de que este tipo de financiamento é responsável por mais de 40% dos incumprimentos no que ao crédito diz respeito. E, com o contexto económico e social que vivemos, os riscos aumentam. Existem alternativas para não gastar grandes somas de uma vez, como o crédito pessoal e os descobertos bancários, com custos mais reduzidos. Por isso, deve escolher, de preferência, um cartão sem anuidade, e fazer os pagamentos dos extratos mensais na sua totalidade.

Não acumule cartões

Há outro cuidado a ter com estes cartões. Todos os consumidores são clientes habituais de diversas marcas, e muitos têm mais do que um cartão de fidelização na carteira. Mas, muitas vezes, nem sequer os utilizam. Se optar por um cartão com a vertente de crédito, como se trata de um financiamento, o montante que for disponibilizado em cada cartão irá contar como um risco potencial de crédito e será registado na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal. E é somado a outros créditos que o consumidor eventualmente tenha contratado. E contam: se for, por exemplo, solicitar um empréstimo para compra de casa, todos os montantes disponibilizados nos cartões servirão para calcular a sua disponibilidade de crédito. Se for titular de muitos destes cartões, em caso extremo, pode não conseguir financiar a compra de casa, por estar demasiado exposto ao risco…

Fonte: Deco Proteste